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domingo, 19 de maio de 2013

A Urgência das Palavras



Preciso sair. Transbordar, vomitar, sair. Romper o silêncio e fazer barulho. Não dá mais pra ficar presa aqui, neste cérebro, entre pensamentos que se movem tão depressa.Tenho que pegar um ar e fazer vibrar estas cordas, mexer esta língua, movimentar esta boca. Não posso mais ficar guardada. Quero deixar de ser estática e aparecer pro mundo, sou palavra e tenho minhas vontades. Preciso ventilar, ecoar, doer os ouvidos de quem quer que seja, onde quer que eu esteja. Preciso que me escutem na sala escura do cinema, no cantinho do balé, entre as notas do violino, na solidão da sala vazia, na lotação do Theatro Municipal. Quero sair. Ouçam-me. Não me importa quem esteja interpretando lá na frente, meu palco é a boca de qualquer um. Dobrem-se aos meus desejos, rendam-se a mim, eu vou passar. E ai de quem tentar me impedir.  Responderei no mesmo instante com a ironia dos mais fortes, porque nada se compara ao incômodo que eu posso causar. Quero tirar a atenção, despertar o interesse, mostrar que faço sentido mesmo quando não fizer. Não sou uma qualquer. Posso destruir sua linha de raciocínio, te desligar do concreto e sobressair com um tom mais alto. Sou capaz de mexer com suas emoções, estragar seu choro, arruinar suas sensações, interromper seu riso, desrespeitar seu momento, não me importa. Tenho que sair daqui. E tenho urgência. Não posso esperar que as luzes se acendam, preciso brilhar na escuridão, estou com pressa. Tenho que escapar por entre os lábios dos outros pra me sentir viva, me destacar da multidão e embaralhar os pensamentos do vizinho. Minha existência é nula aqui dentro, só existo quando saio por aí a incomodar. É hora de escolher uma vítima e atacar. Esqueçam a concentração deste momento, pois aqui vou eu, ganhar a liberdade com uma simples frase dita a esmo, sem pensar.

-Ai, como é que ele consegue decorar tudo isso? 






quarta-feira, 15 de junho de 2011

Procura-se

Está em falta. É cada vez mais raro. Difícil de encontrar. Procura-se pelo silêncio. Não falo do silêncio 100%, imagina, moro em cidade grande e não teria essa pretensão. O barulhinho distante, o ruído dos carros passando, o burburinho, não me incomodam. Falo de outro tipo de silêncio, que não encontro mais.

É o casal de idosos no cinema que comenta cada cena, como se estivesse no sofá de sala vendo novela.

É o taxista que insiste em puxar papo, enquanto você só quer admirar a paisagem.

É o restaurante chique, de preço caro, que se tivesse os decibéis medidos, teria praticamente que instalar portas anti-ruído pra não incomodar a vizinhança.

É o celular que toca, o rádio que apita, no meio do concerto, da peça, do filme.

É o cara sentado do seu lado no avião, que conversa sem parar enquanto você só quer dormir.

É o sujeito que, no meio de uma reunião, não consegue ficar calado, tem que fazer uma pergunta, um comentário, ainda que não seja relevante.

É a mulher que passa todo o show do Paul McCartney tagarelando com uma amiga, em vez de sentir a emoção daquele momento, em vez de curtir um silêncio diferente, um silêncio de vozes em coro, em sintonia com a música que vem do palco.

É como se algo obrigasse as pessoas a começarem a falar. Você não tem direito de estar em silêncio, que logo te recriminam: anti-social, metida, antipática, reservada demais, misteriosa.

Eu adoro falar, contar histórias, dividir sensações com quem me interessa. Mas, muitas vezes, preciso do bom e raro silêncio.

Um minuto de silêncio para pensar, para observar, para admirar, para sentir.

Um minuto de silêncio para ler, para escrever, para cantar, para trabalhar.

Um minuto de silêncio para tomar uma decisão, para dizer o que realmente vale a pena ser dito.