segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tenho 39 e não estou casada, não tenho filhos e não sei dirigir. Você acha que sou fracassada?

(Reproduzo o texto que li na revista TPM. Sensacional!)


Por Nina Lemos

Eu tenho 39 anos e não estou casada. Não tive filhos e isso não está nos meus planos urgentes. O sonho da casa própria ainda espera (até quando?). E, não, eu não tenho carro, porque eu não sei dirigir. Se você pensa que eu sou uma ótima cozinheira e ofereço jantares finos para os amigos, esqueça. Eu não sei nem fazer arroz.

Essa sou eu, Nina Lemos, 39 anos, uma loser, prazer.

Se eu fosse homem, eu não teria que explicar nada. Nem escrever este texto. Eu estaria apenas aproveitando a vida. Seria um cara foda. O único problema seria eu não ter carro, claro.
Como eu sou mulher, posso fazer uma lista para provar para vocês que eu não sou uma loser. Será que isso é necessário?

Na dúvida... Tenho bom coração e sou cercada de amigos que me amam. Tenho 20 anos de análise e adoro criança. Já me apaixonei por homens que também se apaixonaram por mim e sou amiga de boa parte dos meus ex-namorados. Ainda vou me apaixonar outras vezes, claro. E, se você tem 27 anos e acha que ter quase 40 é fazer parte de uma outra dimensão, eu aviso. Não é. A gente é a mesma pessoa. Só que menos neurótica (se você fizer esforço para isso, claro).

E profissionalmente, no mundo atual, não existe estabilidade, o que é ótimo. OK, eu poderia ser funcionária de uma estatal, mas morreria de tédio. No meu caso, trabalho em casa, tenho liberdade para escrever sobre coisas de que gosto. Algumas pessoas dizem que o que eu escrevo as ajuda. E, ah, eu lancei sete livros e um romance, que eu escrevi sozinha! Não estou rica. Mas esse nunca foi meu objetivo. Não preciso de muito dinheiro, graças a Deus. E agradeço por isso todos os dias. Pago as minhas contas escrevendo. Nunca achei que isso fosse possível, nem nos meus mais ambiciosos sonhos adolescentes.

Satisfeita? Se eu estivesse casada e tivesse três filhos, e ainda soubesse cozinhar e dirigisse uma picape para pegar as crianças na escola, talvez eu não precisasse contar tudo isso. Eu seria inserida na sociedade com destaque automaticamente, com direito a alguns pontos de milhagem.

Sim, eu já me senti freak muitas vezes. Principalmente no Natal, quando todos têm filhos e maridos e eu não. Mas depois de algumas viagens para Berlim (onde as pessoas de 40 anos podem ser alternativas sem serem consideradas loucas) e os tais anos de análise passei a achar que tudo bem.

Na verdade, passei a achar que tudo ótimo. Eu sou uma pessoa legal e contente com a minha vida (nem sempre, claro!). Quase todos os meus amigos são meio parecidos comigo. No sentido de estarem ligados no que está acontecendo. A Costanza Pascolato, que tem 70, me disse outro dia que largou as filhas indo a museus em uma viagem a Londres e foi com o neto para o rock. Ela ganhou dele um anel de caveira e não o tira por nada. Vocês acham que a Costanza é louca?

Algumas pessoas da minha família já devem ter achado que eu era. E por isso arrumaram uma maneira de me rotular. Elas acham que eu sou artista. Eu não contrario. Se é mais fácil para elas pensar assim, tudo bem. Mas e se eu não escrevesse livros, não aparecesse de vez em quando na televisão nem mostrasse minha cara aqui na Tpm? Aí eles iam achar que eu era o quê? Só “artista” pode ter 39 anos e não ser casada nem ter filhos?

Não era para ser assim, mas é. Tenho muitas amigas da minha idade solteiras e sem filhos. E também tenho amigas casadas e com filhos. Todas ficam insatisfeitas às vezes porque a vida não é fácil. E aquelas que pararam de trabalhar para cuidar dos filhos se acham losers e às vezes até inventamos um campeonato.

– Eu vou fazer 40 anos, não tenho filhos e tô solteira!
– E eu que fiz mestrado e hoje sou só uma mãe? Se eu não arrumar um emprego de novo antes de fazer 40 vou me matar.

Brincadeira macabra essa, não?

Mas não, nada disso. Nós não somos losers, baby. Nós somos incríveis (na maioria das vezes).

PS.: Nina Lemos está solteira, mas pode estar casada quando você estiver lendo este texto.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Hora do Recreio

Outro dia um amigo que me conhece há 14 anos olhou pra mim e disse: “você tá feliz, não tá?”. Dei um sorriso como resposta e ele entendeu. Você se lembra da última vez em que sentiu uma felicidade plena, sem que nenhum fator extraordinário tivesse causado essa sensação? Algo como a felicidade que você sentia quando tocava o sinal do recreio. Era uma alegria, uma sensação de liberdade, de saber que naqueles próximos 30 minutos você podia fazer o que quisesse, não era? A hora do recreio era hora de brincar, de fofocar com as amigas, e, mais tarde, de paquerar. Era o momento de se inserir naquela sociedade formada por outras crianças e adolescentes, de mostrar quem você realmente era. A hora do recreio era sagrada, era especial, ninguém queria perder. Me lembro até hoje de como fiquei decepcionada quando minha irmã mais velha, ao chegar à faculdade, me contou que lá não tinha recreio. “Como assim, não tem recreio? Deve ser muito sem graça essa tal de faculdade...”


Eu não tenho mais recreio faz tempo, mas sei que é possível viver como se ele existisse. Que tal acordar um pouco mais cedo pra dar um mergulho antes do trabalho? Ou sair do serviço uma hora antes pra gargalhar numa peça de teatro em plena segunda-feira? Pegar um cineminha no meio da tarde de uma quarta? Não é uma felicidade? Podem parecer coisas simples, mas há quanto tempo você não faz uma delas? São escapadinhas como essas que trazem de volta aquela sensação de liberdade que você tinha quando criança, quando não precisava ser responsável, nem cuidar de ninguém. Aquela sensação da hora do recreio. Experimente só. Meia horinha por dia de “autos” faz um bem danado. Ah, e se tiver um lanchinho gostoso no meio, então, hum...melhor ainda.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quase 80

Eles são do tempo em que se dava corda em relógio de pulso.
Do tempo em que quase não havia carros, não existia tv e as novelas de rádio eram o maior sucesso.
Do tempo em que as pessoas se respeitavam e não tinham pressa.
Do tempo em que o tempo passava mais devagar.

Um é bem conhecido no país inteiro: Leo Batista, apresentador de tv, 60 anos de profissão, para pra conversar como se me conhecesse há séculos. Sempre com seu casaquinho, voz mansa e firme, carinha simpática. Um fofo. Me conta uma piada, reclama da bagunça do Rio, revela que se sentiu desrespeitado numa festa onde apresentou o convite mas teve que ouvir da mocinha da porta "o nome do senhor não consta da nossa lista, o senhor teria outro nome?" Compartilha comigo da ideia de que o que estraga este país de natureza exuberante é seu povo, mal-educado, ladrão, porco, desonesto, com raras exceções, claro. Ele tem quase 80, mas a cabeça jovem e a lucidez de um garoto. De um jeitinho meigo, diz que nunca está cansado, "vocês é que vivem cansados" e termina o papo contando que não gosta de palavras que lembrem coisas antigas. "Museu, baú, estão doidos pra me pegar. Passo longe deles."

A outra personagem desta história, não conheço de nome. De bengala na mão por causa de um tombo que sofreu, a senhorinha, de pele bem menos enrugada que o esperado pra sua idade, dispara, com a doçura de quem não se importa em zombar de sua própria condição: "sabe quando você vê que a pessoa tem mais de 80? quando ela diz 'vou tirar retrato', 'me empresta um rouge', ou 'acabou meu laquê'. Hoje em dia se diz foto, blush, fixador."

Hoje em dia se diz muita besteira. Se fala muito e se ouve pouco, e eu me incluo nessa lista. Os jovens não tem mais tempo de escutar os mais velhos. Quanto mais novo, mais tem pressa não sei de quê. Quando   perdemos nossos velhos queridos -avós, avôs, tios- é que sentimos pena de não termos aproveitado toda a sabedoria que eles acumularam. "Como era mesmo aquela história que o vovô contava?"

O tempo passa depressa. Portanto, sinta-se sortudo se alguém com quase 80 estiver disposto a gastar o tempo dele, este sim, curto, jogando conversa fora com você.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Atos e Consequências

Uma ligação. Um passo. Você atravessou a rua e deu de cara com o amor da sua vida. Você atendeu aquele telefonema e seu destino mudou pra sempre. Coincidência? Acaso? Um filme estrelado pela
Gwyneth Paltrow, em 1998, mostra como seria a vida da personagem se ela tivesse chegado alguns segundos antes à estação de metrô e não tivesse perdido o trem. "De caso com o acaso" é uma comédia romântica que nos faz pensar naquela velha perguntinha: "e se...?" E se você tivesse aberto a porta do trem  e entrado naquele vagão em vez de perdê-lo? E se você tivesse chegado em casa dez minutos antes e visse seu marido te traindo?

Você já parou pra pensar quantas coisas na sua vida seriam diferentes se você não tivesse tomado alguma decisão? Se você nunca tivesse ido àquela festa, não teria conhecido o cara com quem você se casou. Se  nunca tivesse feito aquela prova, não teria virado estagiária da empresa onde hoje você é chefe. Se nunca tivesse ido naquela viagem, não teria o conhecimento que precisava para ser aprovada naquela entrevista.

Destino? Deus? Sorte? Estava escrito?

Você pode não acreditar em nada disso. Mas o fato é que a vida oferece oportunidades infinitas e cabe a nós escolhermos por qual lado da calçada andar, em quais números da loteria apostar. Na maioria das vezes, não nos damos conta de como um ato banal pode mudar nossas vidas. Porque, na maioria das vezes, atos banais não mudam mesmo nosso futuro. Mas, quando menos esperamos, a vida nos surpreende.

Quantas vezes não saímos de casa com preguiça e a noitada da qual não esperávamos nada acaba sendo a melhor do ano? Quantas vezes não conhecemos pessoas que vão virar grandes amigos por meios completamente inusitados? Como jornalista esportiva, já vi vários casos de medalhistas que começaram a praticar algum esporte porque, um dia, estavam sentados na frente da tv assistindo a um programa que os fez pensar: "E SE eu começasse a jogar isso?" E pronto: a vida estava mudada pra sempre.

Talvez aquele sinal tenha fechado pra que você não sofresse um acidente 100 metros adiante. Ou você até tenha sofrido um acidente pra se casar com o médico que te atendeu no hospital. Você pode ter perdido aquele importante jantar de negócios por causa do trânsito, mas também porque acabaria tendo uma indigestão se tivesse ido. Você não precisa saber reconhecer que atitude tomada desenhou sua vida como ela é hoje. Mas que viver com a sensação de que temos as rédeas das nossas vidas é muito mais divertido, ah, isso é.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Pedido de Casamento

"Amiga, estou morando sozinha. Me pedi em casamento e aceitei!"
A frase não é minha, mas achei impossível ouvi-la sem escrever sobre o que ela representa. Também moro sozinha e tenho exatamente esta sensação. Como é bom viver numa época em que as mulheres não precisam necessariamente casar para ter sua própria casa. Aliás, este é um conselho que dou a todas: viva sozinha primeiro, conheça-se melhor, para depois pensar em dividir espaço com outro. Morar sozinha é ter uma liberdade incondicional. É poder ser bagunceira ou arrumadinha, sem que isso perturbe ninguém. É poder escolher entre viver num lugar careta ou transado, clássico ou moderno, de paredes brancas ou coloridas, e saber que essa decisão é só sua. Ter nossa própria casa é poder escolher o que vai passar na tv, não se preocupar com o volume do som, dar quantas festas por ano quiser, levar quem a gente bem entender pra passar a noite.

Conheço muita gente que nunca passou por essa experiência e, sinceramente, acho que estão perdendo uma parte essencial da vida. Morar sozinha é conquistar sua independência. É como viajar sozinha: você se sente mais responsável, tem obrigação de ser adulta. E como é bom poder confiar em si própria. Saber que você vai conseguir resolver aquele vazamento do banheiro, vai poder decidir se quer aquele móvel aqui ou ali, se aquela decoração combina ou não. Claro que quem monta uma casa sempre tem a ajuda de algum parente ou amigo que já passou por isso. Mas a palavra final é nossa, só nossa. É como entrar numa discussão tendo razão: a gente tem certeza de que vai sair ganhando.



  

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pela Metade

Outro dia li um texto da Danuza Leão que gostaria de ter escrito. Começava assim:

"A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.

A gente sai pra jantar, mas come pouco.  Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.

Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil.

Adora tomar um banho demorado,  mas se contém para não desperdiçar os recursos do planeta.

Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.

Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar.

E por aí vai."

Tudo bem, não dá pra passar pela vida fazendo só o que gosta. Espera aí, será mesmo que não dá? Minha avó já dizia que tudo que é exagerado faz mal. Mas e se aprendermos a dosar o que gostamos e injetarmos aos poucos esses prazeres nas nossas vidas ? Que tal transformar uma obrigação chata num dever não tão insuportável? É como fazer dieta, a tal lei da compensação. Come um brigadeiro hoje, fica o resto da semana na salada de frutas, pra compensar o estrago. Malha pesado hoje, se afunda no sofá amanhã. Simples assim, sem neura. Eu tive uma amiga que deixava de viajar de férias com a família porque no hotel não tinha academia. Morreu nova, de uma crise de asma, com 30 anos. Um pouco de felicidade, de fazer o que se gosta, me parece uma questão de sobrevivência. Já temos responsabilidades demais, já cumprimos ordens demais, já temos que aturar chatos demais.

Quando der vontade de fazer tudo errado, de ser ridícula, inadequada, incoerente, e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a seu respeito, simplesmente...seja. Afinal, quem paga suas contas é você mesma.

"Recuse prazeres incompletos e meias porções", aconselha Danuza.

Minha avó estava errada: felicidade exagerada não faz mal.

sábado, 25 de setembro de 2010

Quantos anos você tem?

Parece uma pergunta simples - só parece. Acabo de ler o best-seller "Comer Rezar Amar", que mês que vem chega aos cinemas com a adorável Julia Roberts no papel da escritora Liz Gilbert, e gostei de uma passagem em que ela fala sobre isso. Liz vai para Bali encontrar um xamã, como parte de sua viagem de auto-conhecimento, e fica curiosa pra saber a idade daquele senhor tão experiente. Jamais conseguiu. Não só porque o velho sábio não tem um registro de nascimento, mas porque ele mede sua idade de um jeito peculiar. Quando acorda bem disposto, alegre, confiante, acredita ter uns 65. Na manhã seguinte, se estiver cansado, com dores, se seu humor já não estiver tão bom, se sente com 105.

O que diz a sua certidão de nascimento? Uma data? Ou será que nas entrelinhas não está escrito "30 anos, mas com corpinho de 22, saudável, bem resolvida, emocionalmente equilibrada, pronta pra ser feliz"?
Ou então: "25 anos, cansada da vida, irritada com o mundo, ranzinza, como se tivesse 52"? Qual idade você SENTE que tem?

Sua pele pode não ser mais de bebê. Seu rosto pode ter uma marquinha de expressão, seus fios de cabelo podem ter começado a te dar trabalho. Mas é o seu estado de espírito que demonstra sua verdadeira idade. Aposto que você conhece uma "coroa" de 45 anos que você jurava que tinha pouco mais de 30. Ninguém quer parecer mais velho. Tá bom, quando a gente tem 15, não vê a hora de chegar aos 18. Mas, passada essa fase adolescente, todas nós daríamos tudo pra não envelhecer. Que tal então pararmos pra pensar no que nos faz SENTIR mais velhas e riscar de vez estes hábitos da nossa vida? De que adianta ter apenas 28 mas andar por aí como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros? Provavelmente estará escrito "40 anos" na sua testa. Cada um tem sua fórmula para viver bem, sua maneira de ser feliz. Descubra qual é a sua e se agarre nela. É bem mais econômico do que fazer uma plástica e vai te render muito mais elogios.